Nutrição para Crianças

Seletividade alimentar: 5 receitas para experimentar novos alimentos

Fazer seu filho experimentar novos alimentos, principalmente frutas, legumes e vegetais, pode ser um desafio imenso. Isso porque enquanto algumas crianças são bem abertas a novas texturas e sabores, outras podem precisar de exposição diversas vezes até aceitarem alguma coisa nova.

Se essa é a realidade aí na sua casa, saiba que você não está sozinho: muitas famílias enfrentam o mesmo desafio. E a boa notícia é que dá pra driblar os hábitos desses pequenos "comedores exigentes" tornando o momento da alimentação uma experiência interessante e lúdica.

Ampliar desde cedo o leque de alimentos ingeridos pela criança não apenas fornece nutrientes importantes para o seu crescimento e desenvolvimento, como permite que ela se transforme num adulto com hábitos alimentares mais saudáveis, sem grandes restrições.

Neste texto, vou te explicar o que é a seletividade alimentar, as estratégias que mais funcionam no dia a dia e, no final, 5 receitas fáceis para ajudar seu filho a provar coisas novas.

O que é seletividade alimentar?

A seletividade alimentar é uma questão bem frequente entre as crianças a partir de dois anos de idade, época em que muitas delas começam a se alimentar sozinhas e podem escolher o que e quanto comer.

Nessa fase, é comum que elas escolham comer um pequeno grupo de alimentos repetidamente, se recusando a experimentar coisas novas e deixando os pais enlouquecidos.

Mas antes, vamos tentar entender todo esse processo. Responda aí para você mesmo de forma bem honesta: qual é a primeira coisa que você faz quando vê um alimento ou prato pela primeira vez e tem que decidir se vai comê-lo ou não? Bom, você provavelmente olha para ele, toca, sente o cheiro e tenta entender o que tem ali na sua frente. Aí, se você não gostar da aparência, do aroma ou da sensação que ele te provoca, tem grandes chances de decidir não prová-lo, certo? Essa reação é extremamente comum até em nós, adultos. Logo, por que pensamos que vai ser diferente com os nossos filhos?

Tudo para eles é uma novidade. De uma hora para outra, eles estão descobrindo um mundo de possibilidades, que vai muito além do leite que eles estavam acostumados até então.

É normal? Quando se preocupar

Na maioria das vezes, sim, é uma fase. Estima-se que crianças podem precisar ser expostas a novos alimentos mais de 10 vezes antes de experimentá-los. Ou seja, será um exercício diário de amor e de muita paciência para todos os envolvidos. E não se desespere se ela recusar muita coisa na primeira vez.

Para não se angustiar com cada refeição, vale olhar para o que a criança come ao longo da semana, e não só em um dia. As orientações do NHS (sistema de saúde britânico) lembram que, se a criança está ativa, ganhando peso e parece bem, ela está comendo o suficiente.

Essa é uma das queixas que mais chegam até mim no consultório. Embora o cenário possa ser bem desafiador, lembre-se de manter a calma e não hesite em buscar um nutricionista materno-infantil para te acompanhar nessa jornada quando ela parecer muito difícil de lidar sozinha. Reuni mais conteúdos sobre a alimentação dos pequenos na página de nutrição infantil.

Os degraus da alimentação: olhar, tocar, cheirar e lamber

Uma das melhores maneiras de ajudar as crianças a superar a ansiedade com a comida é conduzi-las através do que chamamos na nutrição materno-infantil de "progressão alimentar" ou "degraus da alimentação".

A experimentação de novos alimentos implica em avançar por várias etapas, que vão desde tolerar algo até decidir comê-lo, de fato. E como fazemos para percorrer todas essas etapas? Estimulando os sentidos da criança e incentivando-a a conhecer melhor os alimentos. Vamos lá:

Olhar

Peça para seu filho olhar para a comida. Ele precisa tolerar e se familiarizar com o alimento que está no prato. Então, pergunte como ele acha que é, se parece crocante ou macio, doce ou salgado, tudo sem tocar na comida. Isso vai ajudar a reduzir a ansiedade inicial de conhecer algo pela primeira vez.

Tocar

Depois de olhar tudo com atenção, faça seu filho tocar em cada um dos itens do prato. Deixe-o explorar formatos, texturas, temperatura. Se o seu filho não gostar de sentir um alimento nas mãos ou da sensação que ele causa, provavelmente não o comerá! Além disso, a interação com os alimentos também ajuda a eliminar a ansiedade gerada por não saber como será aquela comida.

Cheirar

O cheiro é uma sensação extremamente poderosa! Cheiros agradáveis de comida podem ser muito confortantes e, com o tempo, evocar boas memórias. Quem não se lembra do cheiro do bolo da avó, por exemplo? Portanto, cheirar a comida ajuda a criar experiências e memórias positivas sobre ela.

Lamber

Antes de a criança decidir colocar ou não o alimento na boca, estimule-a a lambê-lo. Muitas vezes, ao fazer isso, ela já percebe que gosta do sabor e resolve dar uma mordida! Caso contrário, está tudo bem também. Foi dado mais um passo rumo à experimentação de coisas novas, e isso é o mais importante de todo esse processo.

Você pode permanecer em qualquer uma dessas etapas o tempo que for necessário. Aos poucos, a criança vai construir sua familiaridade com os alimentos e, assim, aumentar a quantidade de itens que ela come.

Você também vai notar que esse processo é mais rápido com alguns alimentos e mais lento com outros. Se perceber que a criança gostou, por exemplo, de batata-doce, experimente apresentar outros itens de textura e paladar semelhantes, como abóbora e mandioquinha.

Dicas para ajudar seu filho a experimentar novos alimentos

E quando a seletividade acontece em crianças maiores, que já conhecem mais sobre os alimentos mas, mesmo assim, insistem em não prová-los? Neste caso, também podemos recorrer a algumas técnicas simples, e até lúdicas, que costumam funcionar na maioria dos casos. Isso significa que seu filho nunca mais vai jogar a cenoura no chão e passará a implorar por um brócolis no almoço? Infelizmente não. Seria uma irresponsabilidade da minha parte garantir isso. Mas certamente essas ideias vão te ajudar a dar passos positivos na direção certa, sempre de forma gradual e constante.

Ofereça opções

Ninguém gosta de ser forçado a fazer algo, especialmente bebês e crianças que diariamente tentam estabelecer sua independência. E essa regra vale também para a comida. Embora fazer uma escolha entre fatias de maçã ou um suco natural possa não parecer muita coisa pra você, isso já dá às crianças a autonomia que elas desejam, ao mesmo tempo que mantém você no controle da situação. Vai ser muito mais fácil seu filho se animar a experimentar um prato novo se ele achar que a ideia partiu dele. Você conduz e oferece as opções, mas ele escolhe!

Envolva a criança no planejamento das refeições

Uma das coisas mais importantes que você pode fazer para expandir o interesse dos pequenos por comida é envolvê-los nas compras e na escolha das refeições. Leve as crianças ao supermercado e permita que elas escolham alguns itens saudáveis que gostariam de experimentar. Isso ajuda a dar confiança e torna a hora das refeições mais divertida e emocionante, já que foram elas que selecionaram os alimentos daquele dia.

Leve seu filho para a cozinha

Crianças ajudando a lavar os alimentos na cozinha

Incentive as crianças a ir para a cozinha com você e ajudar na preparação das refeições e lanches. Apesar de o cômodo ser sempre considerado perigoso para elas, existem várias tarefas seguras e apropriadas para cada faixa etária, como lavar os legumes, buscar alguns itens na despensa, amassar batatas, misturar a salada, entre muitas outras coisas.

Existem vários estudos que mostram que, quando as crianças estão envolvidas na preparação das refeições, elas ficam mais propensas a consumir os alimentos que foram preparados. Além disso, você as ajuda a desenvolver uma habilidade que poderão usar pelo resto da vida: preparar refeições saudáveis.

Deixe a criança montar o próprio prato

Ainda seguindo a ideia de proporcionar aos pequenos uma sensação de independência e autonomia, se seu filho já tiver mais de três anos, permita que ele monte o próprio prato durante as refeições. Pode demorar algumas tentativas, pode fazer uma certa sujeira de início, mas a maioria das crianças estará mais disposta a adicionar alimentos saudáveis ao prato se tiver liberdade para escolher.

Faça combinações de segurança

Uma boa forma de expandir a aceitação de novos alimentos é misturá-los com coisas que a criança já come. Se seu filho já come arroz, acrescente um pouco de cenoura, ervilha ou brócolis durante o cozimento, por exemplo. O mesmo vale para o molho do macarrão ou para um refogado de carne. Mas lembre-se de nunca tentar esconder o alimento ou mentir que se trata de outra coisa. A criança precisa confiar e ter segurança no processo.

Crie versões caseiras dos industrializados

Chips caseiros de batata-doce

Se seu filho gosta de batata chips industrializada, por que não tentar fazer uma versão caseira desse lanche e convidá-lo a provar? Também dá pra ampliar a oferta de alimentos e fazer a mesma coisa com batata-doce, mandioquinha e inhame. Cortando tudo bem fininho, eles ficam super crocantes e podem ser armazenados, depois de frios, em potes herméticos. No e-book Petiscos Saudáveis você encontra mais ideias de petiscos para substituir os industrializados.

Mostre que um mesmo alimento vira pratos diferentes

Se o bolo de cenoura faz sucesso por aí, mas a cenoura crua ou cozida não é unanimidade, mostre ao seu filho que se trata do mesmo ingrediente. Convide-o para fazer um bolo com você e sugira assar uns chips de cenoura junto, ou rale um pouco do alimento para usar na salada do jantar.

Não force

Vamos ser sinceros? Nem nós, adultos, gostamos de todos os alimentos. Com as crianças não vai ser diferente. Se seu filho já provou algo de diversas formas e insiste em dizer que não gosta, não force. Apresente outros itens e vá montando uma lista dos que foram bem aceitos. Lembre-se de que o mais importante nesse processo é fazer com que a criança prove a maior quantidade de alimentos possível, não que ela ame todos eles.

Eduque pelo exemplo

As crianças são extremamente influenciadas pelo seu ambiente, e isso inclui cultura, mídia e família. A influência dos pais é especialmente importante, inclusive na alimentação. É o que os especialistas chamam de "educação pelo exemplo": quando as pessoas ao redor da criança têm hábitos alimentares saudáveis, é mais provável que ela se guie por esse comportamento e também opte por alimentos mais nutritivos. Por isso, sempre que puder, coma junto com seu filho. O exemplo vale ouro!

O ambiente da refeição também conta. Expliquei em outro texto por que você não deve deixar seu filho comer assistindo TV.

Cuidado com as compras

Se você quer evitar que seu filho faça escolhas não saudáveis dentro de casa, limite a oferta desses produtos evitando comprá-los quando for ao mercado. Mantê-los na despensa sempre vai proporcionar uma competição injusta entre o brócolis e o pacote de batata frita, por exemplo. Ou entre o suco de caixinha e o suco de laranja in natura. Conhece o ditado "o que não é visto não é lembrado"? Ele se encaixa perfeitamente nessa situação.

5 receitas fáceis para seu filho experimentar novos alimentos

Outra saída é apostar em preparações diferentes. Se você está tendo dificuldade em fazer com que seus filhos comam coisas diferentes, essas 5 receitas podem te ajudar. Elas são fáceis de preparar, muito gostosas e extremamente nutritivas. Além disso, todas elas também estão liberadas para vegetarianos, inclusive a torta salgada, que pode ser facilmente recheada apenas com vegetais.

Então anote tudo e mão na massa!

Guacamole

Guacamole (foto: Pexels)

Ingredientes:

Modo de fazer:

Amasse o abacate em um bowl. Pique a cebola e o tomate em cubinhos e acrescente ao abacate amassado. Adicione o sal, um fio de azeite, o limão e o coentro. Misture tudo e leve para a geladeira. Pode degustar com torrada, com tortilha ou como você preferir. Fica uma delícia e é bem refrescante.

Mousse de chocolate com abacate

Mousse de chocolate com abacate (foto: Pexels)

Ingredientes:

Modo de fazer:

Derreta o chocolate em banho-maria ou no micro-ondas. Em um refratário, coloque o abacate e o chocolate e bata com a ajuda de um mixer ou no liquidificador até formar um creme. Coloque em uma travessa ou em potinhos individuais e leve para gelar por 3 horas. Você pode decorar como quiser antes de servir.

Abobrinha empanada

Ingredientes:

Modo de fazer:

Corte as abobrinhas em fatias e, em uma tigela, tempere com azeite, vinagre e sal. Lembre-se de que o queijo parmesão já é bem salgado, então não exagere no sal. Misture com as mãos para que todas peguem os temperos.

Em outra tigela, coloque os ingredientes secos (farinhas, queijo e lemon pepper). Jogue as abobrinhas temperadas nessa tigela e misture com as mãos para que todas fiquem empanadas.

Leve ao forno preaquecido a 200 graus até que estejam crocantes.

Torta de liquidificador

Torta de liquidificador (foto: Cook'n Enjoy)

Ingredientes:

Modo de fazer:

Leve tudo ao liquidificador e bata até obter uma massa homogênea. Em uma forma untada com óleo e farinha, coloque parte da massa, recheie e cubra com o restante da massa. Leve para assar em forno preaquecido a 180 graus por 30 a 40 minutos.

Opções de recheio: frios, frango desfiado com requeijão, carne moída, legumes e queijo. Aqui, você pode deixar a sua criatividade rolar solta!

É uma ótima opção para o jantar, para o lanche das crianças e também para aproveitar o que tem na geladeira. Para mais ideias de lanche, veja o e-book Lancheira Saudável.

Salada de bifum

Salada de bifum (foto: Panelaterapia)

Ingredientes:

Modo de fazer:

Depois de lavar os legumes, rale a cenoura e corte o pepino em tiras. Prepare um omelete apenas com sal e corte também em tiras. Pique a muçarela e coloque o bifum em um refratário com água quente. Deixe cozinhar por 5 minutos ou até que amoleça. Escorra a água, adicione os demais ingredientes e tempere. Armazene na geladeira.

Com paciência e essas estratégias, acredite: você vai ajudar seu filho a superar a seletividade alimentar e se transformar num excelente provador de novos alimentos. Com a abordagem certa, ele vai aprender a aceitar e apreciar muitos tipos diferentes de alimentos. Pode confiar!

Gostou das sugestões? E se você tem alguma dica que funcionou aí, compartilhe também: vamos fazer deste espaço um grande mural de troca de experiências entre mães. Afinal, estamos todas juntas, certo?

Perguntas frequentes

O que é seletividade alimentar?

É quando a criança passa a comer um pequeno grupo de alimentos repetidamente e se recusa a experimentar coisas novas. É bem frequente a partir dos dois anos, quando muitas crianças começam a se alimentar sozinhas e a escolher o que e quanto comer.

Quantas vezes preciso oferecer um alimento novo?

Estima-se que a criança pode precisar ser exposta a um novo alimento mais de 10 vezes antes de experimentá-lo. Por isso, não desista se ela recusar nas primeiras vezes.

Devo forçar meu filho a comer?

Não. Se ele já provou um alimento de diversas formas e insiste que não gosta, apresente outros itens. O mais importante é que a criança prove a maior quantidade de alimentos possível, não que ela ame todos eles.

Quando a seletividade alimentar preocupa?

Se a criança está ativa, ganhando peso e parece bem, ela está comendo o suficiente; vale olhar o que ela come ao longo da semana, e não em um único dia. Quando a situação parecer muito difícil de lidar sozinha, busque o acompanhamento de um nutricionista materno-infantil.

Referências