Nutrição para Gestantes

Grávida brasileira na América Latina: altitude, ceviche, doce de leite e mate

Para a gestante brasileira, a América Latina é onde a comida mais se parece com a de casa: arroz, feijão, mandioca e milho estão em quase toda mesa. Os pontos que pedem atenção são outros: a altitude de cidades como La Paz, Cusco e Bogotá, que muda a leitura do exame de anemia, o ceviche cru, o doce de leite e o mate.

Neste texto eu falo de Chile, Argentina, Peru, Colômbia e dos vizinhos que seguem a mesma lógica, como Bolívia, Equador e Uruguai.

Altitude e ferro: o exame que precisa de outra régua

Quem mora no alto, como em Bogotá (cerca de 2.600 m), Quito (2.850 m), Cusco (3.400 m) ou La Paz (3.600 m), tem menos oxigênio no ar. O corpo responde produzindo mais hemoglobina. Por isso, a Organização Mundial da Saúde publicou em 2024 uma tabela que ajusta o ponto de corte da anemia conforme a altitude onde a pessoa vive: quanto mais alto, maior a hemoglobina esperada.

Na prática, isso tem duas consequências:

Pergunte ao seu médico se o laboratório usa valores de referência ajustados para a altitude da sua cidade.

A necessidade de ferro já sobe muito na gravidez, em qualquer altitude. A OMS recomenda suplemento diário de ferro e ácido fólico para gestantes, e a dose é definida pelo seu médico conforme os seus exames. No prato, ajudam:

Eu explico mais no post sobre ferro na gestação.

Uma observação sobre o chá de coca, muito oferecido a turistas para o mal da altitude: não há segurança estabelecida para gestantes, então converse com o obstetra antes de tomar. O mesmo vale para viagens a cidades muito altas durante a gravidez. Para os chás em geral, veja o post sobre chás na gravidez.

Ceviche: o limão não cozinha o peixe

O peixe do ceviche fica com aparência de cozido por causa do limão, mas o ácido não elimina bactérias e parasitas como o calor elimina. Por isso, o governo dos Estados Unidos e a Direção-Geral da Saúde de Portugal colocam o ceviche, junto do sushi e do sashimi, na lista do que a gestante deve evitar.

A cozinha peruana, chilena e colombiana tem muitas opções com peixe e frutos do mar cozidos: sopas, ensopados, peixe grelhado e chupes. O peixe continua bem-vindo na gravidez; a diferença está em ser bem cozido.

Queijos frescos

O queso fresco, comum em toda a região, merece o mesmo cuidado que o queijo minas frescal artesanal: as autoridades americanas orientam a gestante a evitar queijos frescos desse tipo quando não forem aquecidos, por causa da listéria. Prefira os queijos curados ou os frescos aquecidos, como na arepa quente.

Doce de leite, alfajor e os selos "ALTO EN"

O doce de leite, os alfajores e as sobremesas da região são deliciosos e muito doces. A OMS recomenda que os açúcares livres fiquem abaixo de 10% das calorias do dia, e de preferência abaixo de 5%. Para uma gestante, isso costuma significar doce como parte do dia, em porção pequena, depois de uma refeição, e não como lanche principal.

Um aliado aí são os rótulos. Desde 2016, o Chile obriga alimentos com muito açúcar, sódio, gordura saturada ou calorias a trazer na frente da embalagem um selo preto "ALTO EN". Outros países da região adotaram selos parecidos, e você já conhece a lógica pela lupa dos rótulos brasileiros. Na hora da compra, quanto menos selos, melhor.

Se você recebeu o diagnóstico de diabetes gestacional, o cuidado com o açúcar é maior, e eu falo disso no post sobre alimentação na diabetes gestacional.

Mate, chimarrão e café

Na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e no sul do Chile, o mate faz parte do dia, como o chimarrão no Rio Grande do Sul. A erva-mate tem cafeína, e a quantidade varia muito com o jeito de preparar e com quantas vezes a cuia é completada. Na gestação, o limite de referência é de 200 mg de cafeína por dia, somando mate, café, chá preto e refrigerante de cola.

Dá para manter o hábito em quantidade menor e longe das refeições, por causa do ferro. Eu mostro como fazer as contas no post sobre cafeína na gravidez.

Pré-natal: como funciona por aí

Cada país tem o seu sistema, com rede pública e privada:

As regras de atendimento para estrangeiras mudaram nos últimos anos em alguns países, e a Argentina, por exemplo, passou a cobrar nos hospitais nacionais o atendimento que não é de urgência para estrangeiras que não têm residência permanente. Confirme no posto de saúde, no seu plano ou no consulado brasileiro quais documentos levar.

A comida parecida com a de casa

A boa notícia é que o prato brasileiro se monta fácil por aí:

Como no Brasil, vários países da região fortificam a farinha de trigo com ácido fólico, mas isso não substitui o suplemento indicado pelo seu médico.

Para os outros temas da gravidez, veja a página de nutrição para gestantes. Se você mora na América Latina e quer ajuda para montar o prato com o que encontra aí, eu atendo por vídeo, em português: agende a sua consulta.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com o seu médico ou com a nutricionista que acompanha a sua gestação.

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Gestar longe de casa fica mais simples quando quem está do seu lado sabe o mesmo que você: o parceiro, a mãe que veio ajudar, a amiga brasileira da cidade. Mande este guia para essa pessoa, assim vocês vão às consultas com as mesmas perguntas.

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