Na Ásia, o maior cuidado alimentar da gestante brasileira costuma ser o contrário do que se ouve no Brasil: em vez de faltar iodo, ele pode sobrar, por causa das algas. O peixe cru do sushi e do sashimi e o sal escondido nos molhos e conservas completam a lista do que vale observar.
Neste texto eu falo do Japão, da Coreia do Sul e da China: o que muda no prato, como funciona o pré-natal e como lidar com a língua.
Iodo: quando a alga vira excesso
O iodo é essencial para a tireoide da mãe e para o desenvolvimento do cérebro do bebê. A Organização Mundial da Saúde recomenda 250 µg por dia na gestação e na amamentação. O problema na Ásia é outro: a alimentação do dia a dia pode passar muito disso.
Japão: o caldo dashi feito com kombu, o nori e a hijiki são fontes muito concentradas de iodo. O próprio governo japonês define um limite máximo de iodo mais baixo para gestantes do que para as outras mulheres adultas.
Coreia do Sul: a tradição manda a mulher tomar sopa de alga (miyeok-guk) várias vezes ao dia depois do parto. Um levantamento nacional com mais de mil puérperas coreanas encontrou uma ingestão média de quase 3.000 µg de iodo por dia, mais de dez vezes a recomendação da OMS.
China: o sal é iodado desde 1995. A quantidade de iodo no sal foi reduzida em 2002 e de novo em 2012, depois que o monitoramento encontrou excesso de iodo em parte da população.
Iodo demais também atrapalha a tireoide, da mãe e do bebê. Na prática:
coma algas com moderação e varie: nori no onigiri não é o mesmo que kombu todo dia;
evite a alga hijiki na gravidez, que além do iodo concentra metais pesados;
não some um suplemento de iodo à alimentação rica em algas sem conversar com o seu médico;
se você tem doença da tireoide, avise o seu obstetra sobre o quanto de alga você come.
Sushi, sashimi e mercúrio
Em muitos países, como Reino Unido, Portugal e Estados Unidos, a orientação oficial para gestantes é evitar peixe cru, pelo risco de bactérias e parasitas. O NHS, por exemplo, libera sushi só quando o peixe ou o fruto do mar está cozido. No Japão, onde o sushi está em todo lugar, dá para seguir essa regra e continuar aproveitando a comida local:
sushi com recheio cozido: camarão cozido (ebi), enguia grelhada (unagi), omelete (tamago), pepino (kappa maki);
pratos quentes: peixe grelhado (yakizakana), cozidos (nimono), sopas e o nabe.
Além do peixe cru, existe a questão do mercúrio, que se acumula nos peixes grandes. O Ministério da Saúde do Japão tem uma tabela para gestantes:
até 1 vez por semana (porção de cerca de 80 g): kinmedai, espadarte (mekajiki), atum-rabilho (kuromaguro) e atum-patudo (mebachi);
consumo normal: atum-amarelo (kihada), atum-branco (binnaga) e atum em lata.
Para ter uma ideia, uma peça de sushi tem uns 15 g de peixe, e um prato de sashimi, uns 80 g. O próprio ministério reforça que o peixe é importante na gravidez e que a tabela não é um pedido para parar de comer peixe.
Na China, o cuidado extra é com o peixe de água doce cru, como o yusheng de algumas regiões: segundo a OMS, ele transmite parasitas que se alojam no fígado.
Listéria e ovo cru
O material do Ministério da Saúde do Japão para gestantes cita como alimentos de risco para listéria os queijos não pasteurizados, os patês, o presunto cru (nama-hamu) e o salmão defumado. Outro hábito local é o ovo cru sobre o arroz (tamago kake gohan). Na gestação, eu oriento ovo com clara e gema firmes, como recomendam a maioria das agências de saúde.
O sal escondido nos molhos
Shoyu, missô, kimchi, conservas (tsukemono), lámen instantâneo e o caldo das sopas concentram muito sódio. A OMS recomenda menos de 5 g de sal por dia para adultos, e uma tigela de lámen com o caldo pode chegar perto disso sozinha.
Algumas trocas simples:
prefira o shoyu com menos sódio (no Japão, procure "gen'en" no rótulo);
coma o macarrão e deixe parte do caldo na tigela;
use o kimchi e as conservas como acompanhamento, em pequena quantidade;
tempere com gengibre, cebolinha, gergelim e limão.
Se você está com pressão alta ou inchaço, esse ajuste merece conversa com o obstetra.
Arroz, feijão e o que mais você encontra
Arroz é fácil em toda a região. O feijão é outra história:
Japão: com a comunidade brasileira grande, cidades como Hamamatsu, Toyota e Oizumi têm mercados brasileiros, e há lojas online que entregam no país todo;
Coreia e China: o feijão preto aparece em lojas de importados e na internet.
Uma troca que funciona: o azuki é feijão, e pode ir para o prato salgado, mesmo que na Ásia ele apareça mais nos doces. Tofu, edamame e ovos ajudam na proteína, e as folhas verdes escuras, como o espinafre e o komatsuna, somam ferro. Para entender por que o ferro pesa tanto na gestação, leia a importância do ferro na gestação.
Pré-natal e a barreira da língua
Japão: ao registrar a gravidez na prefeitura, a gestante recebe a caderneta materno-infantil (Boshi Kenkō Techō), que muitas prefeituras oferecem também em português, e cupons que ajudam a pagar as consultas do pré-natal.
Coreia do Sul: estrangeiras com o seguro nacional de saúde têm a mesma cobertura das coreanas e podem pedir o cartão com o auxílio para despesas da gravidez.
China: a gestante recebe uma caderneta de saúde materno-infantil, e nas cidades grandes há hospitais internacionais com atendimento em inglês.
Para a consulta render, prepare uma lista traduzida dos seus suplementos e alergias, peça intérprete quando o hospital oferecer e use o tradutor do celular para os rótulos. O ácido fólico também está na rotina daí: o Japão recomenda 400 µg por dia para quem planeja engravidar.
Se o enjoo apertar com cheiros novos, veja as dicas do post sobre enjoo na gravidez. E para a base da alimentação da gestante, comece por engravidei, preciso mesmo comer por dois? e pela página de nutrição para gestantes.
Se você mora na Ásia e quer ajuda para equilibrar o prato local com o que faz falta da comida brasileira, eu atendo por vídeo, em português: agende a sua consulta.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com o seu médico ou com a nutricionista que acompanha a sua gestação.
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