Quem engravida na Europa encontra um pré-natal público bem organizado, mas com regras que mudam de um país para o outro: o iodo e a vitamina D, por exemplo, são suplementados em alguns lugares e em outros não. No prato, a atenção vai para os embutidos curados, os queijos de leite cru e o peixe cru, e o feijão costuma estar na mercearia brasileira mais próxima.
Aqui eu junto o que vale para Portugal, Espanha, Itália, Irlanda, Reino Unido e Alemanha.
Como funciona o pré-natal em seis países
Em todos eles, a gravidez de baixo risco é acompanhada na atenção primária, e a maternidade entra perto do parto ou quando surge algum risco.
Portugal: o pré-natal é feito no centro de saúde, com o médico de família e o enfermeiro de família, e tudo fica anotado no Boletim de Saúde da Grávida.
Espanha: a gestante é acompanhada no centro de salud pela matrona, a enfermeira obstetra, com consultas e ecografias com o ginecologista.
Itália: o Serviço Sanitário Nacional oferece o pré-natal com ginecologista e ostetrica (parteira), em consultório ou hospital.
Irlanda: quem mora no país tem pré-natal gratuito pelo esquema de cuidados maternos, dividido entre o clínico geral (GP) e a maternidade.
Reino Unido: a primeira consulta no NHS é com a midwife (parteira), que acompanha a gravidez de baixo risco.
Alemanha: o acompanhamento costuma ser com o ginecologista (Frauenarzt), muitas vezes junto com uma Hebamme (parteira), e os exames ficam registrados no Mutterpass.
Meu conselho prático: peça cópia dos seus exames e guarde tudo junto. Se você mudar de país ou quiser uma segunda opinião, isso economiza semanas.
Ácido fólico: o ponto em comum
Aqui os países concordam. Portugal, Reino Unido, Irlanda, Itália e Alemanha recomendam suplemento de 400 µg de ácido fólico por dia, de preferência começando antes da gravidez e mantendo pelo menos até a 12ª semana. Algumas mulheres precisam de dose maior, como quem tem diabetes ou teve um bebê com defeito do tubo neural, e a dose também muda para quem começou tarde. Quem define é o médico.
Iodo: aqui os países discordam
O iodo é essencial para a tireoide da mãe e para o cérebro do bebê, e cada país resolve a questão de um jeito:
Portugal: a Direção-Geral da Saúde recomenda suplemento de iodeto de potássio, de 150 a 200 µg por dia, desde antes de engravidar até o fim da amamentação exclusiva, com prescrição médica.
Alemanha: a recomendação é de 100 a 150 µg por dia na gravidez.
Espanha: o guia do Ministério da Saúde sugere 200 µg por dia só para quem não alcança o iodo necessário com a alimentação (leite, derivados e sal iodado).
Itália: a campanha oficial é pelo sal iodado, "pouco sal, mas iodado".
Irlanda: a HSE lembra que é difícil chegar ao iodo só com a comida e que o multivitamínico de gestante costuma trazer de 100 a 200 µg.
Reino Unido: o NHS diz que, além do ácido fólico e da vitamina D, não há necessidade de outro suplemento sem prescrição.
No Brasil, o sal de cozinha é iodado por lei, e por isso o iodo raramente aparece na conversa do pré-natal. Fora daqui, vale olhar o rótulo do sal e perguntar ao seu médico se o suplemento faz sentido para você. Quem tem doença da tireoide não deve tomar iodo por conta própria. E algas, só com moderação: a DGS não recomenda a alga hijiki na gestação, pelo excesso de iodo e de metais pesados.
Vitamina D, inverno longo e pouco sol
Quem sai do Brasil para o norte da Europa sente a diferença: no inverno, o sol é fraco demais para a pele produzir vitamina D.
Reino Unido: o NHS recomenda 10 µg de vitamina D por dia na gravidez, de outubro a março, e o ano todo para quem tem pele escura ou fica pouco ao sol. O limite é de 100 µg por dia.
Irlanda: a HSE recomenda 15 µg por dia durante toda a gravidez.
Portugal: a DGS orienta exposição solar diária moderada, com proteção da pele.
Nos outros países, quem decide é o seu médico, olhando o seu exame.
Embutidos, queijos e peixe: o que muda no prato
A Europa é a terra do presunto cru e do queijo artesanal, e é justamente aí que a gestante precisa de mais cuidado.
Embutidos curados. Presunto cru, jamón, prosciutto, salame e chouriço não são cozidos e podem transmitir toxoplasmose. Portugal e Espanha orientam evitar; o NHS orienta comer só depois de aquecidos até sair vapor, como na pizza ou numa massa ao forno.
Queijos. Evite os de leite cru (não pasteurizado) e os de casca mofada branca, como brie, camembert e chèvre, a não ser cozidos. Os curados e duros, como parmesão, gouda e emmental, e os pasteurizados são escolhas seguras.
Peixe. O NHS pede para evitar tubarão, peixe-espada e marlim, limitar o atum (até 4 latas ou 2 postas por semana) e comer no máximo 2 porções de peixe gordo por semana. Sushi, só com peixe cozido.
Fígado. Tem muita vitamina A, e o NHS orienta evitar. Vale para o nosso fígado acebolado também.
Cafeína. O limite é de 200 mg por dia, o mesmo da Europa inteira. Eu explico como contar no post sobre cafeína na gravidez.
Onde achar comida brasileira
Nas cidades com muitos brasileiros, como Lisboa, Porto, Londres, Dublin e Barcelona, as mercearias brasileiras costumam ter feijão preto, farinha de mandioca, polvilho e goma de tapioca. Fora delas, algumas trocas funcionam bem:
o feijão preto aparece como "black beans" nas prateleiras latinas e caribenhas;
o feijão em lata do país (borlotti, kidney, pinto), escorrido e lavado, faz um bom arroz com feijão;
a mandioca costuma estar congelada em lojas africanas e asiáticas;
maçã, pera e frutas vermelhas da estação substituem a manga cara do inverno.
O arroz com feijão continua sendo uma ótima base na gravidez: ferro, fibra e proteína no mesmo prato. Se você ainda tem dúvida sobre quanto comer, leia engravidei, preciso mesmo comer por dois?.
Para fechar
A base é a mesma em todo lugar: ácido fólico desde cedo, comida bem cozida, peixe com pouco mercúrio e atenção ao iodo e à vitamina D. Os outros temas da gravidez estão na página de nutrição para gestantes.
Se você mora na Europa e quer ajuda para montar o prato com o que encontra no mercado daí, eu atendo por vídeo, em português: agende a sua consulta.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com o seu médico, a sua parteira ou a nutricionista que acompanha a sua gestação.
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